quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Carta Para a Lua

Carta pra Lua





No ano distante de 2007... o tempo é algo intrigante, Lua, hoje é ontem num instante, o amanhã mal chega, passa, e o que se foi, às vezes, marca de um jeito, demora a vida inteira e não se vai...



No ano distante de 2007, dizia eu, de repente, sem preparo nem aviso, conheci tua mãe. Foi como ver a luz da lua cheia descendo no fim da tarde, de surpresa. Uma luz doce sobre areia salgada: Luana.



Foi tua mãe quem me achou, no mar de gente, e a sorte foi minha – imagina se fosse luz distante, do outro lado do mar? Sorte grande é sorte sobre sorte, desde o começo é assim.



Os primeiros traços que vi, foram de alguém que não temia se mostrar, se contar e se entregar. A exposição cobra seu preço, logo fui informado sobre o suposto “Lattes de decepções”, currículo extenso... No entanto, onde estão, deve ser muuuito lá dentro, já que o rosto de Luana não traz peso. Luana? Leveza. Capaz de rir da tristeza como se não fosse com ela.



Numa de nossas primeiras conversas lunares, a 120 quilômetros de estrada, disse a tua mãe que a tristeza dela podia ser tão-somente ressaca da alegria: reação de defesa, por contraste, revigorando o sorriso e clareando o olhar em seguida.



Isso explicaria também a preferência dela, na época, pelos filmes de lágrimas, e porque ela chorou até com Sandy e Júnior! Tua mãe, Lua, em 2007, era uma manteiga derretida... Quando tava sozinha, acho, ou apurando a solidão, é que essa manteiguice vinha e se manifestava com força. Luana? Meiga e manteiga.



A solidão, Lua, é coisa braba, assusta e maltrata. Tem gosto amargo de remédio de antigamente. A flor do seu cultivo pode ser pura amargura. Estar com as pessoas, cultivar amigos, colher paixões, é muito melhor. Cada um de nós aprende isso, mais cedo ou mais tarde. Luana aprendeu cedo.



A lembrança dos primeiros dias, Lua, é terna. As primeiras frases trocadas, de busca e descoberta, fluíam como fluem depois aquelas que, de repetidas, até no silêncio se fazem reconhecidas.



Existem vários tipos de silêncio, Lua. Quase um silêncio para cada segundo. Certamente um silêncio para cada momento, cada situação e cada pessoa. Silêncios longos, de ansiedade ou de paz. Brevíssimas pausas, que, no meio de uma selva de locuções, exprimem bem mais. Silêncios duradouros imperceptíveis, outros que soam como gritos, sendo sutis. Silêncios bons e silêncios ruins.



Em 2007, talvez Luana estivesse ainda se acostumando à diversidade dos sons perdidos ou imaginados. Você já percebeu que o silêncio nunca é quieto na imaginação? O silêncio é som imaginado, quando o volume de dentro ta mais alto que do lado de fora...



Tua mãe sofria com a cacofonia interna que nos leva a querer ajustar os ponteiros e dar novo prumo na vida. A melodia de uma vida ordenada, Lua, é de formação lenta. E para o sensível povo lunar, basta um ruído diferente pra se escutar um sino ao pé do ouvido!



As pessoas crescem rápido a fim de escolher “o que fazer da vida” e, geralmente, pelo caminho, esquecem o que são. Antes de ser o que você faz, você faz o que você é. Lembra disso, Lua.



Um pouco antes do Natal daquele ano de 2007, tua mãe me pediu, de presente, sem cerimônia – pois já tinha noção da permissão prévia: “Escreve sobre mim”.



Mesmo sabendo pouco, porque desejava saber mais, topei sem pestanejar. Tudo que conhecia dela, então, eram pinceladas de uma ausência longínqua, traumática, e o vislumbre da Lua – você, Lua – que nasceria depois. Ecos do passado e do futuro.



As palavras, que tua mãe tanto ama, me deram a chance de me meter, tateando, no presente dela.



Feliz Natal, Lua de Luana.

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