segunda-feira, 26 de outubro de 2009


Entropia

por Flávia Brito (http://www.sabe-de-uma-coisa.blogspot.com/)


Cansei de me esconder no topo da vida. Às vezes eu preciso mesmo de um pouco de sombra, dessa umidade reluzente que protege os meus braços do calor imposto pelo desejo de abraçar o mundo como se abraça um ente querido às vésperas de partir. Com amor. Com fúria. Com a saudade antecipada e incontida de quem não compreende paciência. Com a patética falta de jeito de quem necessita urgentemente e a todo instante se sentir arrebatado pelo próprio coração e há de ser hoje, há de ser agora. Às vezes eu preciso submergir. Eu preciso me esgotar. Eu preciso despencar em queda livre e cair com o peito desprotegido e arrebentar as mãos abertas contra as minhas feridas e ficar ali, exausta, até parar de respirar e então perceber num fôlego só que eu estou viva e que aquela dor mesquinha não é nada, é só mais uma dor mesquinha e inútil que, mais hora menos hora, irá se revolver sozinha na sua pobre e mesquinha e inútil condição de dor. Às vezes eu preciso daquela coisa de puxar o gatilho e disparar cautela contra a minha própria metralhadora giratória, e de ficar calada para ouvir o estampido que finalmente me convencerá de que aquilo que me tolhe definitivamente morreu. E, às vezes, eu preciso apenas ficar quieta, muito quieta, numa quase imobilidade absoluta, e nessa quase imobilidade absoluta sentir que as existências todas vibram frenéticas dentro de mim e me transbordam e não me cabem e estão ali, explodindo nos meus olhos: eles brilham.

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